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Palabra del Ejército Zapatista de Liberación Nacional

Ene052024

Vigésima e Última Parte: O Comum e a Não-propriedade

«Abra bem os olhos, filho, e siga o pássaro Pujuy. Ele não se engana.
Seu destino é como o nosso: caminhar para que outros não se percam».

Canek. Ermilo Abreu Gómez.

Em alguma ocasião passada, há já alguns anos, os povos zapatistas explicavam a luta de «como mulheres que somos» apontando, não uma questão de mera vontade, disposição ou estudo, mas a base material que fez possível essa mudança: a independência econômica das mulheres zapatistas. E não se referiam a ter emprego e salário ou à esmola em moedas com que os governos de todo o espectro político compram votos e adesões. Apontavam para o trabalho coletivo como a terra fértil para essa mudança. Ou seja, o trabalho organizado que não tinha como destino o bem-estar individual, mas o do grupo. Não se tratava apenas de se reunirem para os artesanatos, o comércio, a criação de gado, ou o plantio e a colheita de milho, café, hortaliças. Também, e, talvez, sobretudo, aos espaços próprios delas, sem homens. Imaginem o que naqueles tempos e lugares falavam e falam entre elas: suas dores, suas raivas, suas ideias, suas propostas, seus sonhos.

Não me alongarei mais sobre isso – as companheiras têm sua própria voz, história e destino. Só o menciono porque resta conhecer qual é a base material sobre a qual se construirá a nova etapa que decidiram as comunidades zapatistas. A nova iniciativa, como a catalogariam os de fora.

Tenho o orgulho de apontar que, não só a proposta íntegra foi produto, desde sua concepção, do coletivo de direção organizativa zapatista – toda ela de sangue indígena de raiz maia. Também que meu trabalho se limitou a fornecer informações que minhas chefes e chefes «cruzaram» com a sua, e, depois, a buscar e argumentar objeções e prováveis e futuros fracassos (a mencionada «hipótese» à qual fiz referência em um texto anterior). Ao final, quando terminaram sua deliberação e concretizaram a ideia central, para submetê-la à consulta com todos os povos, eu me surpreendi tanto quanto talvez vocês agora que vão conhecê-la.

Neste outro fragmento da entrevista ao Subcomandante Insurgente Moisés, ele nos explica como chegaram a esta ideia de «o comum». Talvez alguém de vocês possa valorizar o sentido profundamente rebelde e subversivo disto no que, para não variar, nos arriscamos a existência.

El capitán.

-*-

A NÃO-PROPRIEDADE.

Bom, pois em resumo esta é a nossa proposta: estabelecer extensões da terra recuperada como do comum. Ou seja, sem propriedade. Nem privada, nem ejidal, nem comunal, nem federal, nem estadual, nem empresarial, nem nada. Uma não-propriedade da terra. Como quem diz: «terra sem papéis». Então, nessas terras que se vão definir, se perguntarem de quem é esse terreno ou quem é o proprietário, pois vai se responder: «de ninguém», ou seja «do comum».

Se perguntarem se é terra de zapatistas, de partidários ou de quem, pois de nenhum deles. Ou de todos, é o mesmo. Não há comissariado ou agente a quem comprar, assassinar, desaparecer. O que há são povos que trabalham e cuidam dessas terras. E as defendem.

Uma parte importante é que, para que se possa alcançar isso, tem que haver um acordo entre os moradores sem importar se são partidários ou zapatistas. Ou seja que têm que conversar entre eles, não com os maus governos. Isso de buscar a permissão dos maus governos só trouxe divisões e até mortes entre os mesmos camponeses.

Então, respeitando as terras que são de propriedade pessoal-familiar, e as que são para trabalho dos coletivos, cria-se, em terrenos recuperados nestes anos de guerra, esta não-propriedade. E propõe-se que se trabalhe em comum por turnos, sem importar que partido és, ou que religião, ou que cor, ou que tamanho, ou que gênero é.

As regras são simples: tem que ser acordo entre os moradores de uma região. Não cultivar drogas, não vender a terra, não permitir a entrada de nenhuma empresa ou indústria. Ficam excluídos os paramilitares. O produto do trabalho dessas terras é de quem as trabalhar no tempo acordado. Não há impostos, nem pagamento de dízimos. Cada instalação que se construa fica para o próximo grupo. Levam-se apenas o produto de seu trabalho. Mas de tudo isso já iremos falando mais depois.

Isso, assim muito resumido, é o que se apresentou e se consultou com todos os povos zapatistas. E saiu que a imensa maioria esteve de acordo. E também que, em algumas regiões zapatistas, já se estava fazendo desde há anos.

E nós o que fizemos foi, pois, propor um caminho para poder cruzar a tempestade e chegar bem ao outro lado. E não fazer esse caminho sozinhos como zapatistas, mas juntos como povos originários que somos. Claro, sobre essa proposta sairão mais: de saúde, de educação, de justiça, de governo, de vida. Digamos que vemos isso como necessário para poder enfrentar a tempestade.

PENSAR O CAMINHO E O PASSO.

«Como chegou na nossa cabeça? Bom, vou te contar. Vimos várias coisas. Ou seja, não surgiu de uma vez esta ideia. Como que se juntaram e pois como que fomos vendo parte por parte e já depois tudo junto.

Uma foi, pois, a tormenta. Tudo o que se refere à inconformidade da natureza. Sua forma de protestar, cada vez mais forte e cada vez mais terrível. Porque dizemos destruição, mas muitas vezes o que acontece é que como que a natureza recupera um lugar. Ou que ataca as invasões do sistema: as represas, por exemplo. Lugares turísticos, por exemplo, que se constroem sobre a morte das costas. Megaprojetos que ferem, machucam a terra. Então pois há resposta. Às vezes rápido responde, às vezes demora. E o ser humano, bom, o que o sistema fez com o ser humano é que está como atordoado. Não reage. Ainda que veja que vem a desgraça, que há avisos, que há alertas, segue como se nada e, bom, aconteça o que acontecee. Dizem que tal desgraça foi surpreendente. Mas resulta que já leva vários anos de que se avisa que a destruição da natureza vai cobrar. A ciência, não nós, a analisa e a demonstra. Nós, pois, como gente da terra a vemos. Tudo é inútil.

A desgraça não aparece de repente em sua casa, não. Primeiro vai se aproximando, vai fazendo seu barulho para que saibas que aí vem. Toca à sua porta. Destrói tudo. Não só sua casa, sua gente, sua vida, também seu coração. Já não está tranquilo.

A outra é o que chamam a decomposição social ou que dizem que se rompe o tecido social por causa da violência. Ou seja, que uma comunidade de pessoas se relaciona com certas regras ou normas ou acordos, como dizemos nós. Às vezes se fazem leis escritas e às vezes não há nada escrito, mas de qualquer forma as pessoas sabem. Em muitas comunidades se diz ‘ata de acordo’, ou seja, que se põe em palavras. ‘Isso se pode fazer, isso não se pode fazer, isso se tem que fazer’, e assim. Por exemplo, que quem trabalha pois avança. Que o que não trabalha, pois fica fodido. Que está mal obrigar alguém a fazer o que não quer, por exemplo, no caso dos homens contra as mulheres. Que é ruim violentar os fracos. Que é ruim matar, roubar, violar. Mas o que acontece se é ao contrário? Se premia a maldade e se persegue e castiga a bondade. Por exemplo, um camponês indígena que vê que é ruim a destruição de uma floresta, se torna então seu guardião. Protege a floresta, pois, de quem a destrói para tirar lucros. Isso de defender é um bem, porque esse irmão ou irmã estão cuidando da vida. Isso é humano, não é de uma religião. Mas acontece que esse guardião é perseguido, encarcerado e, não raras vezes, assassinado. E se pergunta qual é seu crime de por que o mataram, e se escuta que seu crime foi defender a vida, como o irmão Samir Flores Soberanes, pois aí se vê claro que o sistema está doente, que já não tem remédio, que tem que buscar por outro lado.

O que se precisa para se dar conta dessa doença, dessa podridão da humanidade? Não se precisa uma religião, ou uma ciência, ou uma ideologia. Basta olhar, escutar, sentir.

E depois pois vemos que os grandes Mandões, os capitalistas, pois não importa já o que acontece amanhã. Querem ganhar o pagamento hoje. O máximo que puder e o mais rápido possível. Não importa que lhes digas ‘olha, mas isso que você está fazendo destrói e a destruição se contagia, cresce, se converte em incontrolável e volta para você. Como se cuspisse para cima ou se urinasse contra o vento. Volta para você’. E pode pensar que que bom que a desgraça alcança a um sem-vergonha. Mas acontece que, antes disso, leva um tanto de gente que nem sabe por quê. Como as crianças, por exemplo. O que vai saber uma criança de religiões, ideologias, partidos políticos ou o que seja. Mas o sistema faz responsáveis a essas crianças. Fazem-nas pagar. Destroem em seu nome, matam em seu nome, mentem em seu nome. E lhes herdam morte e destruição.

Então, pois não se vê que vai melhorar. Sabemos que vai piorar. E que, de qualquer forma, temos que atravessar a tormenta e chegar ao outro lado. Sobreviver.

Outra coisa é o que vimos na travessia pela Vida. O que há nessas partes que se supõe que são mais avançadas, que estão mais desenvolvidas como dizem. Vimos que é mentira tudo isso da ‘civilização ocidental’, do ‘progresso’ e essas coisas. Vimos que aí se estava o necessário para guerras e crimes. Agora sim que vimos duas coisas: uma é aonde se encamina a tormenta se não fizermos nada. A outra é o que outras rebeldias organizadas estão construindo nessas geografias. Ou seja, essas pessoas veem o mesmo que vemos nós. Ou seja, a tormenta.

Graças a esses povos irmãos pudemos ampliar a visão, fazê-la mais larga. Ou seja, não só olhar mais longe, mas também olhar mais coisas. Mais mundo, pois.

Então nós, como povos indígenas, nos perguntamos o que faremos, se já acabou, se é cada um por si. Mas vemos aqueles irmãos que agem como se não se importassem com o que acontece com os outros, que só olham por si mesmos, e mesmo assim os alcança. Eles acreditam estar seguros trancados em si mesmos. Mas isso não funciona de forma alguma.

O CAMINHO DA MEMÓRIA.

Então pensamos, lembramos como era antes. Falamos com nossos antepassados. Perguntamos-lhes se antes era assim. Pedimos que nos digam se sempre houve a escuridão, a morte, a destruição. De onde veio essa ideia do mundo. Como foi que tudo se estragou. Pensamos que, se soubermos quando e como se perdeu a luz, o bom pensamento, o saber cabal o que é bom e o que é mau, então talvez possamos encontrar isso e com isso lutar para que tudo volte a ser cabal, como deve ser, respeitando a vida.

E então vimos como chegou isso e vimos que veio com a propriedade privada. E que não se trata de mudar-lhe o nome e dizer que há propriedade ejidal ou pequena propriedade ou propriedade federal. Porque em todos os casos é o mau governo que dá os papéis. Ou seja, é o mau governo que diz se algo existe e, com sua manha, que deixa de existir. Como fez com a reforma de Salinas de Gortari e com os golpes contra a propriedade comunal, que só existia se estava registrada e que, com as mesmas leis, a fazem menos até desaparecê-la. E a propriedade comunal digamos que registrada, pois também provoca divisões e enfrentamentos. Porque essas terras pertencem legalmente a uns, mas contra outros. Os papéis de propriedade não dizem ‘isto é teu’, o que dizem é ‘isto não é daquele, ataca-o’.

E aí tem os camponeses dando volta e volta para que lhes deem um papel que diz que é seu o que é seu porque por si só o trabalha. E camponeses fazendo a guerra contra camponeses nem sequer por um pedaço de terra, não, é por um papel que diz quem é o proprietário dessa terra. E ao que tem mais papel, pois mais apoio de pagamento, ou seja, mais engano. Porque resulta que se tens papel te dão programa social, mas pede que apoies, por exemplo, a um candidato porque esse sim vai te dar o papel e vai te dar dinheiro. Mas resulta que esse mesmo governo te engana, porque com esse papel o vende a uma empresa. E depois acontece que chega a empresa e te diz que tens que ir embora porque essa terra não é tua porque o papel agora tem o maldito empresário. E vai embora por bem ou por mal. E aí têm exércitos, polícias e paramilitares para convencer-te a ir embora.

Basta que a empresa diga que quer tais terrenos, para que o governo decrete a expropriação dessas terras e já diz à empresa que faça seu negócio ‘por um tempo’. Isso fazem com os megaprojetos.

E tudo por um maldito papel. Embora o papel seja dos tempos da Nova Espanha, o papel não vale para o poderoso. É um engano. É para que te confie e fique tranquilo até que o sistema descubra que, debaixo de tua pobreza, há petróleo, ouro, urânio, prata. Ou que há um manancial de água pura, e agora resulta que a água é já uma mercadoria que se compra e que se vende.

Uma mercadoria como foram teus pais, teus avós, teus bisavós. Uma mercadoria como é você, e serão teus filhos, teus netos, teus bisnetos e assim por gerações.

Então esse papel, é como as etiquetas das mercadorias nos mercados, é o preço da terra, de teu trabalho, de teus descendentes. E não se dá conta, mas já estás formado na fila do caixa e vai chegar. E resulta que não só vais ter que pagar, também vais sair da loja e vais encontrar que lhe tiraram a mercadoria, que nem sequer tem o papel pelo qual tanto lutaste seu e seus antepassados. E que a seus filhos talvez herdes um papel, e talvez nem isso. Os papéis do governo são o preço de sua vida, que tem que pagar esse preço com sua vida. Ou seja, é uma mercadoria legal. Essa é a única diferença com a escravidão.

Então os mais velhos contam que o problema, a divisão, as discussões e as brigas, chegaram quando chegaram os papéis de propriedade. Não é que antes não havia problemas, é que se resolviam fazendo acordos.

E o problema é que podem fazer muitos papéis que partem muitas vezes a terra, mas a terra não cresce como os papéis. Um hectare segue sendo uma hectar, embora haja muitos papéis.

Então acontece o que agora com essa coisa que chamam Quarta Transformação e seu programa de Sembrando Vida: nos ejidos há os titulares – que são os ejidatários que têm o maldito papel de certificado agrário -, e os solicitantes que, embora participem na comunidade, não têm papel, porque a terra já está repartida. Supõe-se que os solicitantes são isso, solicitam um pedaço de terra, mas na realidade estão solicitando um papel que diga que são camponeses que trabalham a terra. Então não é que o governo chega e lhes diz que tal terra é deles. Não. Diz-lhes que, se demonstrarem a propriedade de 2 hectares, lhes dão o apoio econômico. Mas essas duas hectares de onde saem? Pois dos titulares.

Ou seja, a terra que o papel diz que é propriedade de um, tem que se partir em pedaços para os solicitantes. Tem que se despedaçar para poder haver vários papéis de um mesmo papel. Não há repartição agrária, há o despedaçar a propriedade. E o que acontece se o direitista não quer ou não pode? Seus filhos querem o apoio econômico, mas precisam do papel. Então brigam com o pai. As filhas? Nem se conta, as mulheres não contam na despedaçada de papéis. E brigam até a morte filhos contra pais. E ganham os filhos e com esse papel, porque a terra segue sendo a mesma e segue estando onde estava, recebem seu dinheiro. Com esse pagamento se endividam, compram algo, ou juntam para pagar ao coiote para ir aos Estados Unidos. Como não lhes alcança, pois vendem o papel a outro. Vão trabalhar fora e acontece que estão ganhando para pagar a quem lhes emprestou. Sim, mandam as remessas aos familiares, mas suas famílias usam isso para pagar a dívida. Depois de um tempo, esse filho volta ou voltam eles. Isso se não o matam ou o sequestram. Mas já não tem terra, porque vendeu o papel e agora essa terra é de quem tem o papel. Então assassinou seu pai por um papel que já não tem. E então tem que buscar o pagamento para voltar a comprar o papel.

Cresce a população, mas a terra não cresce. Há mais papéis, mas só é a mesma extensão de terreno. O que vai acontecer? Que agora se matam entre titulares e solicitantes, mas depois vão se matar entre solicitantes. Seus filhos vão brigar entre eles, assim como ele brigou com seus pais.

Por exemplo: é direitista com 20 hectares e tem, digamos, 4 filhos. É a primeira geração. Repartes a terra ou mais bem o papel e há agora um papel de 5 hectares para cada um. Depois esses 4 filhos têm outros quatro filhos cada um, segunda geração, e repartem seus 5 hectares e lhes dão pouco mais de uma hectare a cada um. Depois esses 4 netos têm outros 4 filhos cada um, terceira geração, e repartem o papel e lhes toca como um quarto de hectare a cada um. Depois esses bisnetos têm 4 filhos cada um, quarta geração, e repartem o papel e lhes dão uma décima parte de hectare a cada um. E já não continuo porque apenas em 40 anos, na segunda geração, vão se matar entre si. Isso é o que estão fazendo os maus governos: estão semeando morte.

O VELHO NOVO CAMINHO.

Como foi em nossa história de luta isso que dizem de ‘base material’?

Pois primeiro foi a alimentação. Com a recuperação das terras que estavam nas mãos dos fazendeiros, melhorou-se a alimentação. A fome deixou de ser a convidada em nossas casas. Depois, com a autonomia e o apoio de pessoas que são ‘boa gente’, como dizemos, seguiu a saúde. Aqui foi e é muito importante o apoio dos doutores fraternos, que assim chamamos porque são como nossos irmãos que nos ajudam não só nas doenças graves. Também, e, sobretudo, na preparação ou seja nos conhecimentos da saúde. Depois a educação. Depois o trabalho na terra. Depois o que é governo e administração dos mesmos povos zapatistas. Depois o que é governo e convivência pacífica com os que não são zapatistas.

A base material disto, ou seja, a forma de produção é uma convivência do trabalho individual-familiar com o trabalho coletivo. O trabalho coletivo tornou possível o deslanche das companheiras e sua participação na autonomia.

Digamos que os primeiros 10 anos de autonomia, ou seja, do levante ao nascimento das Juntas de Bom Governo, em 2003, foram de aprendizado. Os seguintes 10 anos, até 2013, foram de aprender a importância da renovação geracional. De 2013 até hoje foi de constatar, criticar e autocriticar erros de funcionamento, de administração e de ética.

No que se segue agora, teremos uma etapa de aprendizado e reajuste. Ou seja, teremos muitos erros e problemas, porque não há manual ou livro que diga como fazer. Teremos muitas quedas, sim, mas nos levantaremos uma e outra vez para seguir caminhando. Pois somos zapatistas.

A base material ou de produção desta etapa vai ser uma combinação do trabalho individual-familiar, o coletivo e isso novo que chamamos ‘trabalho em comum’ ou ‘não-propriedade’.

O trabalho individual-familiar baseia-se na propriedade pequena e pessoal. Uma pessoa e sua família trabalham seu pedaço de terra, sua lojinha, seu móvel, seu gado. O lucro ou benefício é para essa família.

O trabalho coletivo baseia-se no acordo entre companheiros e/ou companheiras para fazer um trabalho em terra de coletivo (designada assim desde antes da guerra e ampliada depois da guerra). Distribuem-se os trabalhos de acordo com o tempo, capacidade e disposição. O lucro ou benefício é para o coletivo. Costuma-se usar para festas, mobilizações, aquisição de equipamentos para saúde, capacitação de promotores de saúde e educação, e para os movimentos e manutenção de autoridades e comissões autônomas.

O trabalho comum começa, agora, na posse da terra. Uma porção das terras recuperadas declara-se como de ‘trabalho comum’. Ou seja, não está parcelada e não é propriedade de ninguém, nem pequena, nem média, nem grande propriedade. Essa terra não é de ninguém, não tem dono. E, de acordo com as comunidades próximas, ‘empresta-se’ mutuamente essa terra para trabalhá-la. Não se pode vender nem comprar. Não se pode usar para produção, tráfico ou consumo de narcóticos. O trabalho faz-se por ‘turnos’ acordados com os GALs e os irmãos não zapatistas. O benefício ou lucro é para quem trabalha, mas a propriedade não é, é uma não-propriedade que se usa em comum. Não importa se é zapatista, partidário, católico, evangélico, presbiteriano, ateu, judeu, muçulmano, negro, branco, escuro, amarelo, vermelho, mulher, homem, outroa. Pode trabalhar a terra em comum, com o acordo dos GALs, CGAL e ACGal, por povo, região ou zona, que são quem controla que se cumpra com as regras de uso comum. Tudo o que sirva ao bem comum, nada que vá contra o bem comum.

UMA COMPARTILHAÇÃO MUNDIAL: A TRAVESSIA PELA VIDA.

Algumas hectares dessa Não-Propriedade vão-se propor aos povos irmãos de outras geografias do mundo. Vamos convidá-los para que venham e trabalhem essas terras, com suas próprias mãos e conhecimentos. O que acontece se não sabem trabalhar a terra? Pois as companheiras e companheiros zapatistas ensinam-lhes como, e seus tempos da terra, e seus cuidados. Cremos que é importante saber trabalhar a terra, ou seja, saber respeitá-la. Não creio que faça mal a ninguém que, assim como estudam e aprendem em laboratórios e centros de pesquisa, também estudem e aprendam o trabalho do campo. E ainda melhor se esses povos irmãos têm conhecimentos e modo de trabalhar a terra e nos trazem esses conhecimentos e modos e assim também aprendemos nós. É como uma compartilhação, mas não só palavras, mas também na prática.

Não precisamos que venham nos explicar a exploração, porque nós a vivemos há séculos. Também não que venham nos dizer que temos que morrer para conseguir a liberdade. Isso sabemos e praticamos todos os dias há centenas de anos. O que sim é bem-vindo é o conhecimento e a prática para a vida.

Olha, a delegação que foi à Europa aprendeu muitas coisas, mas a mais importante que aprendemos é que há muitas pessoas, grupos, coletivos, organizações que estão buscando a forma de lutar pela vida. Possuem outra cor, outra língua, outro costume, outra cultura, outro modo. Mas têm o mesmo que nós, que é o coração de luta.

Não estão buscando quem é melhor, ou que lhes deem um lugar nos maus governos. Estão buscando curar o mundo. E sim, são muito diferentes entre eles. Mas são iguais, ou melhor, somos iguais. Porque queremos realmente construir outra coisa, e essa coisa é a liberdade. Ou seja, a vida.

E nós, as comunidades zapatistas, dizemos que são nossa família todas essas pessoas. Não importa que estejam muito longe. E nessa família há irmãs maiores, irmãos maiores, irmãzinhas e irmãozinhos. E não existe um melhor. Senão a mesma família. E como família nos apoiamos quando podemos, e nos ensinamos o que sabemos.

E todas, todos, todoas, são gente de baixo. Por quê? Porque os de cima pregam a morte porque isso lhes dá lucros. Os de cima querem que as coisas mudem, mas para seu benefício deles, embora cada vez esteja pior. Por isso são os de baixo os que vão lutar e estão já lutando pela vida. Se o sistema é de morte, então a luta pela vida é a luta contra o sistema.

O que segue depois? Bom, cada um vai construindo sua ideia, seu pensamento, seu plano do que é melhor. E cada um talvez tenha um pensamento diferente e um modo distinto. E isso tem que se respeitar. Porque é na prática organizada onde cada um vê o que sim resulta e o que não. Ou seja, não há receitas ou manuais, porque o que serve para um, talvez não sirva para outro. O ‘comum’ mundial é a compartilhação de histórias, de conhecimentos, de lutas.

Ou seja, como quem diz, segue a viagem pela vida. Pela luta, pois.

Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Moisés.
México, dezembro de 2023. 500, 40, 30, 20, 10, 3, um ano, uns meses, umas semanas, uns dias, apenas há um instante. depois.

P.S.- Ao terminar a entrevista e revisar ele se estava cabal o sentido de suas explicações, o Subcomandante Insurgente Moisés – que recebeu o comando e a voz zapatista há 10 anos, em 2013 – acendeu o enésimo cigarro. Eu acendi o cachimbo. Ficamos olhando o lintel da porta da choupana. A madrugada dava passagem ao amanhecer e as primeiras luzes do dia despertavam os sons nas montanhas do sudeste mexicano. Não dissemos mais, mas talvez ambos pensássemos: «e falta o que falta».

P.S. QUE DECLARA SOB JURAMENTO. – Em nenhum momento ou etapa da deliberação que conduziu à decisão que tomaram os povos zapatistas, surgiram citações ou notas de rodapé ou referências, ainda que distantes, de Marx, Engels, Lenin, Trotski, Stalin, Mao, Bakunin, o Che, Fidel Castro, Kropotkin, Flores Magón, a Bíblia, o Corão, Milton Friedman, Milei, o progressismo (se é que tem alguma referência bibliográfica que não seja a dos seus bajuladores), a Teologia da Libertação, Lombardo, Revueltas, Freud, Lacan, Foucault, Deleuze, o que está na moda ou em voga nas esquerdas, ou qualquer fonte das esquerdas, direitas, nem dos inexistentes centros. Não só, também me consta que não leram nenhuma das obras fundacionais dos ismos que alimentam sonhos e derrotas da esquerda. Da minha parte, dou um conselho não solicitado a quem leu estas linhas: cada um é livre para fazer o ridículo, mas recomendaria que antes de começar com suas tolices tipo «o laboratório da Lacandona», «o experimento zapatista», e de catalogar isto em um ou outro sentido, pensassem um pouco. Porque, falando de ridículos, já vêm fazendo um grande há quase 30 anos ao «explicar» o zapatismo. Talvez vocês não se lembrem agora, mas aqui o que sobra, além de dignidade e lama, é memória. Sem mais.


Dou fé
O capitão

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