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Palabra del Ejército Zapatista de Liberación Nacional

Jun272021

A TRAVESSIA PELA VIDA: PARA QUE VAMOS?

A TRAVESSIA PELA VIDA: PARA QUE VAMOS?

 

Junho de 2021.

Um esclarecimento: muitas vezes, quando usamos «os zapatistas» não estamos nos referindo aos homens, mas aos povos zapatistas. E quando usamos «as zapatistas», não estamos descrevendo as mulheres, mas as comunidades zapatistas. Assim, encontrarão esse «salto» de gênero em nossa palavra. Quando nos referimos ao gênero, sempre acrescentamos «otroa» para apontar a existência e a luta daqueles que não são homens nem mulheres (e que nossa ignorância sobre o assunto nos impede de detalhar – mas aprenderemos a nomear todas as diferenças).

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Agora, a primeira coisa que você precisa saber ou entender é que os zapatistas, quando vamos fazer algo, primeiro nos preparamos para o pior. Partimos de um fim fracassado e, no sentido inverso, nos preparamos para enfrentá-lo ou, no melhor dos casos, para evitá-lo.

Por exemplo, imaginamos que somos atacados, os massacres habituais, o genocídio disfarçado de civilização moderna, o extermínio total. E nós nos preparamos para essas possibilidades. Bem, em 1º de janeiro de 1994, não imaginávamos a derrota, nós a assumimos como uma certeza.

De qualquer forma, talvez isso ajude a entender por que inicialmente ficamos atordoados, hesitantes e desconcertados com a improvisação quando, depois de muito tempo, trabalhamos e nos preparamos para a ruína, descobrimos que… vivemos.

É a partir deste ceticismo que nossas iniciativas se desenvolvem. Algumas pequenas, outras maiores, todas delirantes, nossas convocatórias são sempre dirigidas ao «outro», o que está além de nosso horizonte cotidiano, mas que reconhecemos como algo necessário na luta pela vida, ou seja, na luta pela humanidade.

Nesta iniciativa ou aposta ou delírio ou irracionalidade, por exemplo, em sua versão marítima nos preparamos para o Kraken, uma tempestade ou uma baleia branca perdida para afundar o barco, por isso fizemos canoas – e viajaram com o Esquadrão 421 em La Montaña até chegar a Vigo, Galiza, Espanha, Europa.

Também nos preparamos para não sermos bem-vindos, por isso procuramos de antemão o consenso para a invasão, quer dizer, a visita… Bem, isso de sermos «bem-vindos» não temos muita certeza. Para mais de um, uma, umoa, nossa presença é perturbadora, para dizer o mínimo, se não mesmo totalmente irruptiva. E entendemos que pode ser que alguém, após um ano ou mais de confinamento, possa achar pelo menos inoportuno que um grupo de indígenas de raízes maias, tão pouca coisa como produtores e consumidores de mercadorias (eleitorais e não eleitorais), pretenda falar pessoalmente. (lembra que isto fazia parte de sua cotidianidade?) E, além disso, que tenha como missão principal escutá-lo, enchê-lo de perguntas, compartilhar pesadelos e, é claro, sonhos.

Nos preparamos para que os maus governos, de ambos os lados, impeçam ou obstruam nossa partida e chegada, é por isso que @s zapatistas já estávamos na Europa… Ops, não devia escrever isso, apaguem. Sabemos que o governo mexicano não colocará obstáculos. Falta ver o que os outros governos europeus dizem e fazem – porque Portugal e Espanha não se opuseram.

Nos preparamos para que a missão fracasse, ou seja, se torne um evento midiático e, portanto, fugaz e intranscendente. É por isso que aceitamos principalmente os convites de que quer ouvir e falar, isto é, conversar. Porque nosso principal objetivo não são eventos massivos – embora não os excluamos -, mas a troca de histórias, conhecimentos, sentimentos, avaliações, desafios, fracassos e sucessos.

Nos prepararemos para o caso do avião falhar, por isso fabricamos paraquedas com bordados de muitas cores para que, ao invés de um «Dia D» na Normandia (oh, oh, isso significa que o desembarque aéreo seria na França?… hmm?.. em Paris?!), será um «Dia Z» para a Europa de abaixo, e parecerá então que do céu, choverão flores como se Ixchel, deusa mãe, deusa arco-íris, nos acompanhasse e, pela mão e com seu voo, abrisse uma segunda frente para a invasão. E mais segura porque agora, graças à Galiza de abaixo, o esquadrão 421 conseguiu assegurar uma ponta de praia nas terras de Breogán.

Em suma, sempre nos preparamos para fracassar… e para morrer. É por isso que a vida, para o zapatismo, é uma surpresa a ser celebrada todos os dias, a cada hora. E que melhor maneira de fazer isso do que com dança, música e arte.

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Durante todos estes anos, aprendemos muitas coisas. Talvez o mais importante seja perceber o quão pequenos somos. E não estou me referindo à estatura e peso, mas ao tamanho de nosso compromisso. Nossos contatos com pessoas, grupos, coletivos, movimentos e organizações de diferentes partes do mundo nos mostraram um mundo diversificado, múltiplo e complexo. Isto reforçou nossa convicção de que qualquer proposta de hegemonia e homogeneidade não só é impossível, mas acima de tudo criminosa.

Porque as tentativas – não raro escondidas atrás de nacionalismos de papelão nas vitrines do mall da política eleitoral – de impor formas e pontos de vista são criminosas porque buscam o extermínio de diferenças de todo tipo.

O outro é o inimigo: a diferença de gênero, raça, identidade sexual ou assexual, língua, cor da pele, cultura, crença ou descrença, concepção do mundo, físico, estereótipo de beleza, história. Levando em conta todos os mundos que existem no mundo, há praticamente tantos inimigos, reais ou potenciais, quanto seres humanos.

E poderíamos dizer que quase qualquer afirmação de identidade é uma declaração de guerra contra o que é diferente. Eu disse «quase», e a esse «quase» nos agarramos como os zapatistas que somos.

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Em nossos caminhos, em nossos calendários e em nossa geografia, chegamos à conclusão de que é sempre possível que o pesadelo piore. A pandemia do chamado «Coronavírus» não é o apocalipse. É apenas o seu prelúdio. Se a mídia e as redes sociais quisessem nos tranquilizar antes, «nos informando» sobre a extinção de uma geleira, um terremoto, um tsunami, uma guerra em uma parte distante do planeta, o assassinato de outro indígena pelos paramilitares, uma nova agressão contra a Palestina ou o povo mapuche, a brutalidade governamental na Colômbia e na Nicarágua, imagens de campos de migrantes que são de outro lugar, de outro continente, de outro mundo, e assim nos convencer de que isso «acontece em outro lugar», em apenas algumas semanas, a pandemia demonstrou que o mundo pode ser apenas uma pequena paróquia egoísta, néscia e vulnerável. Os diferentes governos nacionais são as quadrilhas que fingem controlar, com violência «legal», uma rua ou um bairro, mas o «capo» que controla tudo é o capital.

Por fim, coisas piores estão por vir. Mas você já sabia disso, não sabia? E se não, já é hora de saber. Porque, além de tentar convencê-lo de que as tristezas e desgraças sempre estarão distantes (até que deixem de ser e se sentem com você na mesa, perturbem seu sono e deixem você sem lágrimas), eles lhe dizem que a melhor maneira de enfrentar estas ameaças é individualmente.

Esse mal é evitado afastando-se dele, construindo seu próprio mundo impermeável e tornando-o cada vez mais estreito até que só haja espaço para o «eu, meu, mim, comigo». E para isso, bem, eles lhe oferecem «inimigos» de certo modo, sempre com um flanco fraco e que é possível derrotar adquirindo, veja só você, este produto que, veja que coincidência, para esta ocasião única, temos em oferta e você pode adquiri-lo e recebê-lo na porta de seu bunker em questão de horas, dias… ou semanas, porque a máquina descobriu, oh surpresa, que o pagamento também depende da circulação da mercadoria, e que, se esse processo parar ou atrasar, a besta sofre… então sua distribuição e entrega também são negócios.

Mas, como zapatistas que somos, estudamos e analisamos. E queremos confrontar as conclusões a que chegamos com cientistas, artistas, filósofos e analistas críticos de todo o mundo.

Mas não apenas, também e especialmente com aqueles que, na vida cotidiana de suas lutas, sofreram e alertaram para as desgraças que estão por vir. Porque, no que diz respeito às questões sociais, temos em alta estima a análise e avaliação de quem arrisca sua pele na luta contra a máquina, e somos céticos em relação àqueles que, de um ponto de vista externo, opinam, avaliam, aconselham, julgam e condenam ou absolvem.

Mas, cuidado, consideramos que este olhar crítico «outsider» é necessário e vital, pois nos permite ver coisas que não são vistas no calor da luta e, atentamente, nos fornece conhecimento sobre a genealogia da besta, suas transformações e seu funcionamento.

Em suma, queremos conversar e, sobretudo, queremos ouvir quem está na luta. E não nos importa sua cor, tamanho, raça, sexo, religião, militância política ou trilha ideológica, se é que coincide no retrato falado da máquina assassina.

Porque se, quando falamos do criminoso, alguém o identifica com o destino fatídico, má sorte, «a ordem natural das coisas», raiva divina, ociosidade ou descuido, então não temos interesse em ouvir nem em falar. Para descobrir estas explicações, tudo o que precisamos fazer é assistir às novelas e ir às redes sociais em busca de confirmação.

Ou seja, pensamos ter estabelecido quem é o criminoso, seu modus operandi e o crime em si. Estas 3 características são sintetizadas em um sistema, ou seja, em uma forma de se relacionar com a humanidade e a natureza: o capitalismo.

Sabemos é um crime em curso e que sua realização será desastrosa para o mundo inteiro. Mas esta não é a conclusão que estamos interessados em corroborar.

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Porque acontece que, também pelo estudo e análise, descobrimos algo que pode ou não ser importante. Depende.

Partindo do princípio de que este planeta será aniquilado, pelo menos como o percebemos até agora, temos investigado as opções possíveis.

Quer dizer, o navio afunda e lá em cima eles dizem que está tudo bem, que é passageiro. Sim, como quando o petroleiro Prestige afundou na costa da Europa (2002) – Galiza foi a primeira testemunha e vítima – e as autoridades empresariais e governamentais disseram que apenas alguns poucos esguichos de combustível haviam sido derramados. O desastre não foi pago pelo chefe, nem por seus supervisores e capatazes. Foi pago, e continua sendo pago, pelos povos que vivem da pesca ao longo dessas costas. Eles e seus descendentes.

E por «Barco» nos referimos ao planeta homogeneizado e hegemonizado por um sistema: o capitalismo. É claro, podem dizer que «esse não é o nosso barco», mas o afundamento atual não é apenas de um sistema, mas do mundo inteiro, completo, total, até o canto mais remoto e isolado, e não apenas de seus centros de poder.

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Entendemos que alguém pense, e atue de acordo, que ainda é possível remendar, soldar, pintar um pouco aqui e ali, para reequipar o barco. Para mantê-lo flutuante não importa o que aconteça, mesmo vendendo a fantasia de que são possíveis megaprojetos que não só não aniquilam cidades inteiras, mas também não afetam a natureza.

Que existam pessoas que pensem que é suficiente ser muito determinado e se esforçar muito na maquiagem (pelo menos até que os processos eleitorais terminem). E que acreditam que a melhor resposta às exigências de «Nunca mais» – repetidas em todos os cantos do planeta – são promessas e dinheiro, programas políticos e dinheiro, boas intenções e dinheiro, bandeiras e dinheiro, fanatismos e dinheiro. Que sejam fiéis crentes de que os problemas do mundo se resumem a uma falta de dinheiro.

E o dinheiro precisa de estradas, grandes projetos civilizatórios, hotéis, shopping centers, fábricas, bancos, mão-de-obra, consumidores,… polícia e exércitos.

As chamadas «comunidades rurais» são classificadas como «carentes de desenvolvimento» ou «atrasadas» porque a circulação de dinheiro, ou seja, de mercadorias, é inexistente ou muito baixa. Não importa que, por exemplo, sua taxa de feminicídio e violência de gênero seja menor em comparação com a das áreas urbanas. As conquistas do governo são medidas pelo número de áreas destruídas e repovoadas por produtores e consumidores de bens, graças à reconstrução daquele território. Onde antes havia um campo de milho, uma fonte, uma floresta, agora há hotéis, shopping centers, fábricas, usinas termoelétricas, … violência de gênero, perseguição ao diferente, tráfico de drogas, infanticídio, tráfico humano, exploração, racismo, discriminação. Em resumo: c-i-v-i-l-i-l-i-z-a-ç-ã-o.

A ideia deles é que a população camponesa se tornará empregada desta «urbanização». Continuarão vivendo, trabalhando e consumindo em sua localidade, mas o proprietário de todo seu entorno é um conglomerado industrial-comercial-financeiro-militar cuja sede está no ciberespaço e para quem esse território conquistado é apenas um ponto no mapa, uma porcentagem dos lucros, uma mercadoria. E o verdadeiro resultado será que a população nativa terá que migrar, porque o capital chegará com seus próprios funcionários «qualificados». A população nativa terá que regar jardins e limpar estacionamentos, lojas e piscinas onde antes havia campos, florestas, litorais, lagoas, rios e nascentes.

O que se esconde é que, por trás das expansões («guerras de conquista») dos Estados – seja interna («incorporação de mais população à modernidade»), ou externa com diferentes álibis (como a do governo israelense em sua guerra contra a Palestina) -, existe uma lógica comum: a conquista de um território pela mercadoria, ou seja, por dinheiro, ou seja, por capital.

Mas entendemos que essas pessoas, para se tornarem o caixa que administra os pagamentos e cobranças que dão vida à máquina, formam partidos políticos eleitorais, frentes – amplas ou estreitas – para disputar o acesso ao governo, alianças «estratégicas» e rupturas, e todas as nuances em que os esforços e vidas são comprometidos que, por trás de pequenos sucessos, escondem grandes fracassos. Uma pequena lei aqui, um diálogo oficial aqui, uma nota jornalística ali, um tuíte aqui, um tuíte ali, um like acolá, e ainda, para dar um exemplo de um crime global em andamento, os femicídios estão em ascensão. Enquanto isso, a esquerda sobe e desce, a direita sobe e desce, o centro sobe e desce. Como cantava a inesquecível Marisol de Málaga, «a vida é uma tômbola»: todos (acima) ganham, todas (abaixo) perdem.

Mas a «civilização» é apenas um álibi frágil para uma destruição brutal. O veneno continua jorrando (não mais do Prestige – ou não apenas deste navio), e o sistema inteiro parece estar disposto a intoxicar cada último canto do planeta, pois a destruição e a morte são mais rentáveis do que deter a máquina.

Estamos certos de que você será capaz de acrescentar cada vez mais exemplos. Amostras de um pesadelo irracional e ao mesmo tempo atuante.

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Assim, há várias décadas nos concentramos na busca de alternativas. A construção de jangadas, cayucos, lanchas e até mesmo embarcações maiores (a 6ª como uma arca improvável), têm um horizonte bem definido. Em algum lugar será necessário desembarcar.

Limos e lemos. Estudamos e continuamos a fazer isso. Analisamos antes e agora. Abrimos nosso coração e nosso olhar, não para as ideologias atuais ou antiquadas, mas para as ciências, para as artes, e para nossas histórias como povos originários. E com estes conhecimentos e ferramentas, descobrimos que existe, neste sistema solar, um planeta que poderia ser habitável: o terceiro planeta do sistema solar e que, até agora, aparece em livros escolares e científicos com o nome de «Terra». Para maiores referências, é entre Vênus e Marte. Ou seja, de acordo com certas culturas, é entre o amor e a guerra.

O problema é que este planeta já é uma pilha de escombros, verdadeiros pesadelos reais e horrores tangíveis. É pouco o que está de pé. Até a mortalha que esconde a catástrofe está rasgando. Portanto, como direi? A questão não é conquistar esse mundo e desfrutar dos prazeres de quem vence. É mais complicado e requer, sim, um esforço mundial: ele deve ser feito de novo.

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Agora, de acordo com as grandes produções cinematográficas de Hollywood, a saída para a catástrofe mundial (sempre algo externo – alienígenas, meteoros, pandemias inexplicáveis, zumbis parecidos com candidatos a algum cargo público -), é o produto de uma união de todos os governos do mundo (encabeçada pelos gringos)… ou, pior, do governo estadunidense sintetizado em um indivíduo, ou indivídua (porque a máquina já aprendeu que a farsa deve ser inclusiva), que pode ter as características raciais e de gênero politicamente corretas, mas carrega em seu peito a marca da Hidra.

Mas, longe dessas ficções, a realidade nos mostra que tudo é negócio: o sistema produz destruição e vende ingressos para fugir dele… para o espaço. E com certeza, nos escritórios das grandes corporações, existem brilhantes projetos de colonização interestelar… com a propriedade privada dos meios de produção incluída. Em outras palavras, o sistema é movido, em sua totalidade, para outro planeta. O «all included» refere-se àqueles que trabalham, aqueles que vivem dos que trabalham e sua relação de exploração.

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Mas às vezes eles não olham apenas para o espaço. O capitalismo «verde» se esforça por zonas «protegidas» no planeta. Bolhas ecológicas onde a besta pode se abrigar enquanto o planeta se cura das picadas (o que levaria apenas alguns milhões de anos).

Quando a máquina fala de «um novo mundo» ou «humanizar o planeta», está pensando em territórios para conquistar, despovoar e destruir, e depois repovoar e reconstruir com a mesma lógica que agora tem o mundo inteiro frente ao abismo, sempre disposto a dar o passo em frente que o progresso exige.

Você pode pensar que não é possível que alguém seja tão imbecil a ponto de destruir a casa onde mora. «A rã não bebe toda a água da poça que habita«, diz um provérbio do povo originário Sioux. Mas se você tentar aplicar a lógica racional ao funcionamento da máquina, não vai entender (bem, nem a máquina). As avaliações morais e éticas não têm nenhuma utilidade. A lógica da besta é o lucro. É claro, agora você pode se perguntar como é possível que uma máquina irracional, imoral e estúpida governe os destinos de todo um planeta. Ah, (suspiro), isso está em sua genealogia, em sua própria essência.

Mas, deixando de lado o exercício impossível de dotar o irracional de racionalidade, você chegará à conclusão de que é necessário destruir esta monstruosidade, que, não, não é diabólica. Infelizmente, é humano.

E, é claro, você estuda, lê, confronta, analisa e descobre que existem grandes propostas para avançar. Desde aqueles que propõem raspagens e maquiagens, até aqueles que recomendam aulas de moral e lógica para a besta, passando por sistemas novos ou antigos.

Sim, os entendemos, a vida é uma merda e é sempre possível refugiar-se nesse cinismo tão superestimado nas redes sociais. O finado SupMarcos costumava dizer: «o ruim não é que a vida seja uma merda, mas que te forçam a comê-la e ainda esperam que você seja grato por isso«.

Mas suponha que não, que você saiba que a vida realmente é uma droga, mas sua reação não é recuar para dentro de si mesmo (ou de seu «mundo», que depende do número de seus «seguidores» nas mídias sociais lá fora). E então você decide abraçar, com fé, esperança e caridade, uma das opções apresentadas a você. E você escolhe o melhor, o maior, o mais bem-sucedido, o mais famoso, aquele que está ganhando… ou aquele que está perto de você.

Grandes projetos de sistemas políticos novos e velhos. Atrasos impossíveis do relógio da história. Nacionalismos patrióticos. Futuros compartilhados a força de que tal opção tomando o poder e permanecendo nele até que tudo seja resolvido. Sua torneira está vazando? vote por tal. Muito barulho na vizinhança? vote nessa. Subiu o custo do transporte, alimentação, medicinas, energia, escolas, roupas, entretenimento, cultura? Teme a migração? Lhe incomodam pessoas de pele escura, de crenças diferentes, línguas incompreensíveis, de diferentes estaturas e complexidades? Vote em…

Há até mesmo aqueles que não diferem do objetivo, mas do método. E logo repetem acima do que criticaram abaixo. Com malabarismos asquerosos e argumentando estratégias geopolíticas, é dado apoio àqueles que se repetem no crime e na estupidez. Exige-se que os povos resistam às opressões em benefício da «correlação de forças internacionais e da ascensão da esquerda na região». Mas a Nicarágua não é Ortega-Murillo e não vai demorar muito para que a besta entenda isso.

Em todas essas grandes ofertas de soluções no supermercado mortal do sistema, muitas vezes não se diz que elas são a imposição brutal de uma hegemonia e um decreto de perseguição e morte ao que não é homogêneo para o vencedor.

Os governos governam para seus seguidores, nunca por aqueles que não o são. As estrelas da mídia social alimentam suas hostes, mesmo à custa do sacrifício da inteligência e da vergonha. E o «politicamente correto» engole sapos, que mais tarde devorarão aqueles que aconselham resignação «para não beneficiar o inimigo principal».

-*-

É o zapatismo uma grande resposta, uma mais, aos problemas do mundo?

Não. O zapatismo é um monte de perguntas. E a menor pode ser a mais perturbadora: E você?

Diante da catástrofe capitalista, o zapatismo propõe um velho-novo sistema social idílico, e com ele uma repetição das imposições de hegemonias e homogeneidades que agora são «boas»?

Não. Nosso pensamento é tão pequeno quanto nós: são os esforços de cada pessoa, em sua geografia, de acordo com seu calendário e forma, que permitirão, talvez, liquidar o criminoso, e, simultaneamente, refazer tudo. E tudo é tudo.

Cada um, de acordo com seu calendário, sua geografia, seu caminho, terá que construir seu caminho. E, assim como nós, os povos zapatistas, irá tropeçando e se levantando, e o que construir terá o nome que quiser ter. E só será diferente e melhor do que já sofremos antes, e do que sofremos hoje, se reconhecer o outro e o respeitar, se renunciar a impor seu pensamento ao que é diferente, e se finalmente perceber que existem muitos mundos e que sua riqueza nasce e brilha em sua diferença.

Isso é possível? Nós não sabemos. Mas sabemos que, para descobrir, devemos lutar pela Vida.

-*-

Então, o que estamos fazendo nesta Travessia pela Vida se não aspiramos a ditar caminhos, rotas, destinos? O que, se não buscamos adeptos, votos, likes? O que, se não vamos julgar e condenar ou absolver? O que, se não pedimos fanatismo para um novo credo antigo? O que, não buscamos passar para a História e ocupar um nicho no panteão mofado do espectro político?

Bem, para ser honesto com vocês como zapatistas que somos: não só vamos apenas confrontar nossas análises e conclusões com o outro que luta e pensa criticamente.

Vamos agradecer ao outro por sua existência. Agradecer-lhes os ensinamentos que sua rebeldia e sua resistência nos deram. Para entregar a flor prometida. Abraçar o outro e dizer-lhe ao ouvido que não está sozinho, sozinhoa, sozinha. Para lhe sussurrar que vale a pena a resistência, a luta, a dor por aqueles que já não estão mais aqui, a raiva de que o criminoso está impune, o sonho de um mundo que não é perfeito, mas melhor: um mundo sem medo.

E também, e acima de tudo, vamos procurar cumplicidade… pela a vida.

 

SupGaleano.

Junho de 2021, Planeta Terra.

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2 Comentarios »

  1. ¡Hola desde Brasil!
    Muchas gracias por inspirarnos a seguir resistiendo y rebelándonos.
    ¡Que seguir teniendo un ojo crítico no es olvidar mirar la belleza de la vida!

    ¡Vamos, camaradas!

    Comentario de Katlen Rodrigues — junio 30, 2021 @ 10:20 pm

  2. Muy bueno todo lo que escribe. Yo ya me imaginaba desde el 2001 que llegaríamos al punto en que estamos. Propuse que hiciéramos algo que llamo Revolución Doméstica, que seria dejar de comprar cualquier objeto e intercambiar lo necesario, hasta que se detuviera el capitalismo. Y mas concretamente en Brasil, mi país, que hiciéramos lo que llamé de Revolución del Monito, que sería obstruir los ferrocarriles con las mismas piedritas que sostienen los rieles, cubriéndolos con ellas y en seguida, poniendo y unas ramas de ambos lados poco antes para advertir los motoristas de los trenes que a cada rato cruzan todo el país con los minerios hacia los puertos. Eso frenaria toda la cola de trenes… y vendrian a desobstruir, mientras otras personas harian lo mismo en otras partes.. pero cada persona lo haria apenas una vez para que jamás la siguieran. Para que ya no sacaran los minerios.. Nadie debate ese tipo de idea porque ya nadie en Brasil logra imaginarse fuera del sistema. Los que estan fuera del sistema de cualquier manera, porque los dejan de fuera desde siempre o cada vez más.. por un lado ven apenas la delincuencia como salida y no miran hacia la tierra y los medios de producción… y por otro lado están siendo exterminados de forma demasiado sistemática y más aun ahora con esas amenazas sanitarias tan serias. Acá en Brasil se discute una ley por la cual el que no quiera vacunarse no vá a poder hacer casi nada.. ni lugares públicos ni – peor – ni tampoco ingresar a lo que llaman reservas naturales… Que quieren decir con reservas naturales???.. Aqui todas las selvas y savanas están ocupadas ya… hay habitantes… y las estan quemando con napalm pero dicen que es culpa del gobierno brasileño.. como si han quemado un tercio de Suramérica? En un solo día, quemaron siete estados de Brasil y cuatro países.. Y la gente que vivia ahi? Por que nadie menciona ninguna de las personas que vivian en esas selvas que fueron quemadas subitamente en segundos?… Grandes extensiones… la ciudad de São Paulo a miles de quilómetros oscureció a las tres de la tarde, con nubes de humo tóxico de napalm, el dia 19 de agosto del 2019… y desde entonces siguieron quemando y quemando y quemando todo.. y ahora ya no se quiere hacer el censo de la población y a las izquierdas les parece bien porque prefieren preocuparse en comprar vacunas y 5-G. Etcetera. Y por grave que sea y por más que se hable es como si nada.. ni te escuchan.. ni te contestan… Seguimos adelante hacia el abismo.. siempre lo único que importa es quién vá a ocupar cual puesto y quien va a salir de cual puesto… y cada dia más dificil aglutinarse de cualquier manera, menos todavía de una manera sana hacia la tierra, porque las restricciones en un país rico en biodiversidad como en Brasil parecen fijarse exactamente en eso: no permitir que la gente se acerque a la naturaleza… sacarla de ahi..

    Comentario de Inês Rosa Bueno — julio 13, 2021 @ 7:37 pm

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