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Palabra del Ejército Zapatista de Liberación Nacional

Feb072018

DO CADERNO DE NOTAS DO GATO-CACHORRO.

DO CADERNO DE NOTAS DO GATO-CACHORRO.

QUE NARRA COMO SE ENCONTRARAM OS DOIS MAIORES DETETIVES, UM FRAGMENTO DO QUE ELÍAS CONTRERAS E O SUPGALEANO FALARAM QUANDO O CASO DA JÁ NÃO MISTERIOSA DESAPARIÇÃO DOS MANTECADOS, E DE QUANDO DEFESA ZAPATISTA FEZ EM PEDAÇOS A CIÊNCIA DA LENGUAGEM, ASSIM COMO ALGUMAS OCIOSAS REFLEXÕES DO SUP QUE VEM AO CASO.

30 de dezembro de 2017,

Bom e reiterado dia, tarde, noite, madrugada.

Antes que nada, queremos mandar um abraço ao povo Mapuche que continua sendo agredido pelos maus governos dos países chamados Chile e Argentina. Agora, com suas armadilhas jurídicas, voltaram a submeter a juízo condenatório a Machi Francisca Linconao, junto com outras e outros mapuches. Uma prova mais de que, no sistema que padecemos, aqueles que destroem a natureza são os bons, e aqueles que resistem defendendo a vida são perseguidos, assassinados e presos como se fossem criminosos. Mas, apesar disso, ou precisamente por isso, uma só palavra basta para descrever a luta do povo Mapuche e de todos os povos originários deste continente: Marichiweu, dez, mil vezes, sempre venceremos.

-*-

Ontem, uma das cientistas expositoras nos passou o dado de que há um concurso para a mensagem que levará uma nave espacial a outro planeta, e que o prêmio é de um milhão de dólares.

A mensagem que propomos, e que com certeza ganhará, é: “Não permitam que nos instalemos em seu mundo. Se ainda não resolvemos os problemas que provocamos, repetiremos os mesmos erros. Porque então não chegaremos sós, com nós chegará um sistema criminoso. Seremos para seu mundo o Alienígena apocalíptico, o temido oitavo passageiro que cresce e se reproduz graças a morte e a destruição. O motivo para conhecer outros mundos deveria ser a ânsia de conhecimento, a necessidade de aprender, e o respeito ao diferente, e não a busca de novos mercados para a guerra, nem o refúgio para o assassino feito sistema”.

O milhão de dólares favor de depositar na conta bancaria da associação civil “Llegó la hora del florecimiento de los pueblos” que apoia o Concelho Indígena de Governo.

-*-

O que vou ler ia ser nossa participação na mesa de ontem, mas, como ao Pedrinho, me aplicaram a “equidade de gênero”, tapa incluído, e, para variar, ganharam as “como mulheres que somos”. Aí vai:

O doutor John Watson se olha no espelho com preocupação. Se penteia para um e outro lado, para frente e para atrás. Se olha de frente, perfil direito, esquerdo e, com um espelho de mão, atrás. Enquanto está nessa curiosa tarefa murmura para si:

Cabelo de tortilla… por que me diz “cabelo de tortilla”?… será a cor?… ou o tipo de peteado… talvez pelos cabelos brancos que já competem em número com o cabelo castanho… ou será o peteado?.. cabelo de tortilla… maldita menina…”

Nisso está quando Sherlock Holmes, detetive consultor, se levanta de um salto, deixando a rede na que, deitado, arrancava do violino umas notas melancólicas. Acomodando-se com pressa o casaco, Sherlock corre ao doutor:

Rápido Watson, que não temos muito tempo

E onde nos dirigimos, Holmes? O frio aperta e na reunião dizem que vai piorar”, reprocha Watson ao traspassar o dintel do barraco que lhes assignaram as autoridades autónomas durante sua estancia nas montanhas do sudoeste mexicano.

Holmes não se ocupa nem sequer em responder. A grandes trancos, avança pela rua principal da comunidade, e se dirige a pequena casinha cuja a fachada tem um letreiro no que se lê “Comissão de Vigilância” e um mural de vívidas cores desafia a humidade. No seu interior, uma jovem indígena observa atenta o monitor de um computador.

Te´ oyot Tzeb”, (“Te cumprimento, jovena”) diz no seu melhor tzotzil Sherlock Holmes, quem, ao parecer, bastado uns poucos dias para aprender o indispensável para comunicar-se nas línguas maias dessas zonas.

Watson o olha com cara de chacota, quando a mulher que está de comissão de vigilância, lhe responde em perfeito inglês: “Good Afternoon” (“Boa tarde”). Ainda que seu sotaque, mais que britânico, a Watson lhe soou mais próximo ao dublinense.

Holmes ignora o olhar sarcástica de Watson e, em espanhol impecável, pregunta:

Dónde me pueden dar razón de una persona con la que quiero hablar?” (Onde podem me dar informações sobre uma pessoa com quem quero falar)

A mulher, uma indígena jovem, baixinha, de longas tranças e vivos olhos negros, parece muito divertida porque responde em perfeito alemão: “Und wie heißt diese Person?“ (“E como se chama essa pessoa?“)

Holmes inmediatamente capta a brincadeira, e nun francês de migrante “sans papiers”, responde:

Je ne connais pas son nom, mais sa profession est un enquêteur privé” (“Nao sei seu nome, mas sua profissao é investigador privado”)

Non capisco niente” (“não entendo nada”), diz a jovem indígena num italiano de favela e insubmisso.

O doutor John Watson parece divertir-se com os apertos nos que se encontra Holmes, mas olha com preocupação para a rua, temendo que apareça a menina.

Sherlock Holmes está pensando como se diz “investigador privado” ou “detetive” em russo, quando os temores de Watson se confirmam.

Como um pequeno furacão, a menina que diz chamar-se Defesa Zapatista, desce correndo pela rua cheia de poças d’água, e entra intempestivamente a no barraco quando Watson arruma instintivamente o cabelo, e Sherlock está pensando se melhor usa o mandarim ou o polaco.

Defesa Zapatista abraça a Sherlock gritando “Jol-mes, cabeça de vassoura!

Bom, isso de abraça-lo é a maneira de dizer. A altura de Holmes e a da menina dão como resultado que o detetive receba o abraço nos joelhos.

O detetive consultor está desconcertado. A estatura mínima das pessoas com as que tem tratado em Londres é de 1 metro com 75 centímetros, depois de estar em terras zapatistas, teve que baixar seu standard ao metro e meio. A respeito dos infantes, bom, além de tomar distância cada que via um e fazer gestos de desagrado se escutava seu choro, sua experiência era nula. Mas por alguma estranha razão, o mais grande dos detetives sentia simpatia por Defesa Zapatista.

A menina vira para o respeitado Doutor e blogueiro, John Watson, e lhe salta ao pescoço com um ¡Waj-tson, cabelo de tortilla!”, o que não faz nada feliz o ex médico militar.

Defesa Zapatista toma a ambos das mãos e os puxa para a saída: “Rápido, que vamos chegar tarde!

A jovem mulher encarregada da Comissão de Vigilância, desiludida pelo abrupto final de seu internacionalismo linguístico, fecha as 7 janelas do navegador com o tradutor de google em vários idiomas, e volta ao blog que informa das atividades da porta-voz do Concelho Indígena de Governo, María de Jesús Patricio Martínez.

Holmes não necessita correr; por cada uma de suas pernadas, a menina tem que dar vários passos. Sherlock leva na sua mão direita a varinha com a que acostuma perfurar a terra e entre as plantas procurando insetos. Watson se atrasa propositalmente quando vê que o chamado “gato-cachorro” morde a Holmes em uma das barras da calça, certamente para obrigá-lo a reduzir seu tranco e assim caminhe-corra ao ritmo da menina.

De repente a menina para bruscamente e diz aliviada: “Chegamos”.

Estão no curral que serve, ao mesmo tempo para que o gado dos coletivos paste, para os partidos de futebol dos times que revezam para abrir e aprofundar a greta no muro, para festas, bailes e festivais, além de ser campo de treinamento para o incompleto time de Defesa Zapatista.

Watson, que ainda não se orienta bem no povoado onde passam a maior parte do tempo, confirma com desagrado que é um curral, quando sente debaixo do seu calçado a espessa e morna merda de vaca.

Defesa Zapatista diz “esperem aqui, vou buscar o cavalo choco”, e sai correndo com o gato-cachorro atrás dela.

Então, um rapaz indígena de idade indefinida se aproxima ao par de britânicos.

Sherlock Holmes fica olhando como se aproxima e, com a aguda rapidez que lhe deu fama, começa a desenhar um esboco do indígena, mas, antes de que termine, o personagem lhe diz:

Bom dia senhor Jol-mez, senhor Waj-tson. Não se preocupe, diz dirigindo-se a Sherlock, seu alfaiate em Londres poderá remendar sem problemas o rasgo. Também acho que encontraram na sapataria zapatista umas botas do seu número. Assim são as coisas aqui, às vezes parece que não tem nada para fazer, mas você deveria tentar não fumar tanto no cachimbo, isso é prejudicial para sua saúde. Lhe recomendo mais o violino no lugar do cachimbo quando o dia não passa. E não lhe aconselho que nestas terras fale mal das mulheres, de repente se embravecem, principalmente Defesa Zapatista.”

Sherlock Holmes emudece assombrado, e Watson o olha com curiosidade. Al parecer el detective ha recibido una sopa de su propio chocolate.

Holmes passa do assombro a admiração e aplaude “Bravo!, acertou quase tudo, mas permita-me diferir da acusação de misoginia.

Watson, como de costume, não entende nada.

É o indígena quem esclarece, enquanto Holmes assente a cada afirmação:

Elemental, meu querido “cabelo de Tortilla”: o senhor pôs sua apreciada gabardina muito rápido e, sem querer, rasgou um pouco o punho esquerdo. Alguém que se veste assim deve ser muito cuidadoso com o que porta, assim que é de se esperar que entre seus pensamentos esteja ir al alfaiate para arrumar o casaco. Que o alfaiate está em Londres é fácil, como traz o casaco semiaberto, se consegue ver a etiqueta.

As manchas de nicotina na base do dedo índice e parte da palma da mão, delatam que fuma muito no cachimbo, porque são sinais que deixa o tabaco que sai do fornilho. A questão das botas, pois essas botinas que trazem não vão durar muito aqui, e é de se esperar que tenham pensando em conseguir umas botas como as que usamos nós, que são feitas por sapateiros insurgentes e que se conseguem na loja dos companheiros.

Também me esqueci de dizer que o senhor Jol.mes é destro, segura o cachimbo com a esquerda porque a direita é a que usa para, por exemplo, tocar o violino.

O violino, bom, a forma que segura a varinha que traz agora é a mesma que o Paulinho, do mariachi zapatista, usa para tocar o violino nas festas, e o avermelhamento do seu pescoço no lado esquerdo ou é porque toca violino ou porque algum incesto picou aí… ou porque lhe deram uma chupada. A parte de que fala mal das mulheres foi somente para ver se colava, mas traz de companhia um homem, assim que, ou pensa mal das mulheres ou prefere os homens

Holmes aplaude de novo. A insinuação de homossexualidade que fez o indígena não lhe incomoda em absoluto. Mas Watson é muito zeloso de sua heterossexualidade e trata de esclarecer:

Desculpe-me, mas Holmes e eu não somos casal. Quero dizer, somos companheiros mas não no sentido de namorados, senão, bom, quero dizer, é, digamos, uma relação…professional

O indígena o interrompe: “Não se preocupe Waj-Tson, aqui cada um a seu jeito e se respeita”.

Eu sei”, disse Watson, “mas não é o que parece, claro, não é que eu condene as relações desse tipo, só esclareço que…”

Agora é Holmes quem o interrompe e se inclina com respeito dizendo:

Se não me engano, você deve ser Elías Contreras, comissão de investigação”.

Admirado, Watson se tira o chapéu com o qual, inutilmente, tenta esconder seu “cabelo de tortilla”, e cumprimenta.

Holmes agrega: “Só alguém como Elías Contreras poderia fazer essa cadeia de observações, raciocínio e deduções com uma velocidade que me supera”.

Em vez de agradecer, Elías Contreras sorri sarcástico quando diz:

Nah, na verdade é que o SupGaleano tem uns livros que falam sobre vocês dois e dizem como é seu jeito, do cachimbo, o violino e essas coisas, e no escritório de vigilância vi seus nomes na lista de visita e, como são os únicos cidadãos que há no povoado, pois…”

Watson põe de novo, com um pouco de rancor, o chapéu. Mas Holmes se vê sorridente e feliz de topar com o nada famoso detetive, esse que chama “comissão de investigação do ezetaelene”.

Você tem razão, me prezado Elías Contreras, ou devo chamá-lo de outra forma? ”, diz enquanto lhe estende, afetuoso, a mão.

Abasta com Elías”, diz o zapatista enquanto lhes oferece um cigarro de palha, o que ambos recusam com amabilidade. Sherlock retoma a palavra:

Sabe? Comigo acontecia algo parecido com Sir Arthur, que me dava para ler os rascunhos da lamentável crónica dos meus achados que logo adjudicava inexplicavelmente ao doutor Waj-tson, aqui presente.”

Watson quis protestar, mas se contentou em puxar a aba do chapéu.

E eu via que Sir Arthur enfeita, desnecessariamente a meu ver, o labor que realizava. E digo que era ocioso porque o que eu fazia era aplicar a ciência para resolver os crimes.

E a ciência e sua explicação, meu estimado Elías, dista muito do glamour que acostumam atribuir-lhe novelistas e o comum das pessoas.

Além de que não está isenta de erros, da continua e esgotadora experimentação, e do estudo profundo e sistemático dos avances que se dão em todos os cantos do mundo, a ciência e sua aplicação são difíceis.

O rigor científico converte em árido seu exercício, e o contrapõe a preguiça intelectual que se reitera nas opiniões, comentários e superstições comuns. Por isso, quando tem a oportunidade de estudar, algumas pessoas acostumam optar pelas mal chamadas ciências sociais, ou pelas humanidades em general, que, a seu entender e equivocadamente, não requerem do rigor, a exigência e a complexidade dos conhecimentos científicos.

As artes, no que a elas corresponde, não só não demanda um rigor no sentido da exatidão, mas, a diferencia das ciências exatas, as naturais e as humanidades, pedem imaginar não só outras realidades, mas também maravilhar com as formas, sons e cores nas que plasmam essa imaginação.

Talvez por isso é que as artes estão mais próximas das ciências exatas e naturais. A diferença das chamadas humanidades.

La vastidão que demanda o relato novelesco, por exemplo, no caso da ciência seria uma irresponsabilidade imperdoável e uma franca violação ao código ético que qualquer cientista deve incluir em sua pratica.

Mas um problema que cedo ou tarde se deve afrontar é que, o fato de haver-se imposto uma disciplina estrita e possuir conhecimentos sólidos, provoca que aqueles que fazem da ciência sua profissão, não poucas vezes assumam uma atitude pedante e miserável frente as pessoas comuns.

Acostumam ser soberbos e, não poucas vezes, justificar assim sua frivolidade e falta de sentido comum quanto aos fatos cotidianos se trata. Como se a vida real fosse assunto dos mundanos, e eles, elas, eloas, estivessem por cima de tudo.

Mas que, às vezes a pesar dos mesmos cientistas, as ciências exatas e naturais são imprescindíveis, é inegável. A possibilidade real, factível, de sair do pantanoso pesadelo que é já o sistema mundial homogêneo, terá nas ciências exatas e naturais seu apoio principal. Se não for assim, continuaremos nos consolando com a ficção cientifica”.

Watson olha surpreendido a Holmes enquanto pensa “Incrível, Sherlock Holmes está descrevendo a si mesmo com um tom de condenação”.

Holmes percebe o olhar de Watson e, dirigindo-se a ele, esclarece:

Você se equivoca Watson, não estou me autocriticando. É evidente que esse parlamento não é meu, e me tem sido adjudicado pelo tal SupGaleano, porque os zapatistas pensam que o reconhecimento e o suave reproche que fazem, será melhor recebido pela comunidade científica si vem do mais grande dos detetives da história mundial, que si o fazem através de um nariz emascarado que ainda usa o modelo do dinamarquês Niels Henrik David Bohr como referência ao átomo e que, para descrevê-lo, usa expressões como “é uma bolinha formada por muitas bolinhas coladas entre si, e, ao redor desses “amendoins açucarados” giram outras bolinhas”.

Sherlock Holmes se estremece. Um pouco pela escandalosa descrição do átomo, e outro pouco porque parece que, por fim, foi liberado do discurso que o zapatismo lhe impôs, amparado no que se chama “licença poética”.

Elías Contreras, comissão de investigação do ezetaelene, só interveio com um “mmh”.

O que aconteceu a continuação sabemos porque o doutor John Watson tomou nota do que aí se disse, não com a intenção de publicá-lo, mas só pelo interesse que a conversa lhe despertou. O que logo Holmes lhe agradeceria, porque o que lhe disse Elías Contreras o continua fazendo perder o sono.

Sherlock Holmes, levou Elías a um canto apartado, seguidos a distância prudente pelo doutor Watson. A menina estava ocupada tentando convencer um cavalo manco de que ocupasse sua posição na barreira, apoiada pelos ladridos-miados do gato-cachorro.

Agora vamos praticar os tiros livres”, escutou Watson a menina dizer, e viu que um menino acomodava a bola, rindo, debaixo do travessão do que se supõe que era um gol.

Sherlock Holmes quase murmurou:

Meu querido Elías, acudi a você para saber se não tem por aí um caso que requeira dos auxílios de minhas habilidades detetivescas. Claro, prometo ser discreto e não reclamar para mim crédito algum, supondo que tenhamos êxito. ”

Elías Contreras se deteve e disse, no mesmo tom confidente:

Bom, sim. Mas a problema que vemos é muito grande e só temos a cabeça para entender e ver o que fazer. Daí que o que vem na minha cabeça, posso conversar depois com as companheiras e companheiros do comitê.

Excelente! Exclamou Sherlock Holmes, “a reflexão abstrata requer um esforço extra que obriga o cérebro a sublimar-se. Ponha atenção Watson, porque agora afrontaremos, suponho, a problemática suprema de qualquer detetive: resolver um crime só com as ferramentas lógicas e o conhecimento científico”.

Holmes parecia muito animado. Watson não lembra de havê-lo visto assim desde o caso de “Estudo em Escarlate”, que lhe deu nome e prestigio mundial ao detetive consultor.

Sherlock Holmes não adiantou a Elías Contreras. Acendeu seu cachimbo, sim, mas mais para acompanhar o cigarro que Elías já forjava, que porque lhe apeteceu o picante sabor da fumaça do tabaco no paladar.

Elías Contreras começou:

Bom, daí que a problema é grande, mas simples. Ou seja, que sabemos quem é o assassino, quem é a vítima, qual é a arma que se usou, e qual é, como se diz, a cena do crime ou seja, onde se fez o desastre, e seu tempo. Como diz o Sup, temos o calendário e a geografia.

Daí que a problema é grande porque tudo está revolto. Daí que não sei se está revolto na realidade, ou o que acontece é que meu pensamento está revolto.

O seja, que o crime já se fez, mas também se está fazendo e também vai ser feito. Ou seja, é uma desgraça porque não é que já aconteceu simplesmente, ou que está acontecendo agora, também é que vão fazê-lo.

Holmes se mostrou ainda mais interessado, mas não interrompeu Elías Contreras, quem continuou:

Daí que temos que saber o que aconteceu, o que está acontecendo e conhecer o que vai acontecer para não deixar que aconteça, porque se acontece, vai ser uma grande desgraça que não se pode pensar.

Sherlock Holmes aguarda o impasse que abriu a comissão de investigação para aventurar:

Acho que entendo: temos que conhecer o crime cometido para entender o crime que se está cometendo e poder assim evitar que se cometa o outro crime: o maior e mais grande crime na história da humanidade.

Elías Contreras assente e prossegue:

O criminoso não se esconde, ao contrário, bem que se mostra e se gaba do que já se fez. Diz que esteve bem seu crime de que matou, destruiu e roubou para ser conhecido. Penso que aí foi quando nasceu como criminoso, quando pegou esse jeito, é que podemos aprender para saber como está fazendo seu desastre e como vai fazer.

Claro”, interrompe Holmes, “é necessário reconstruir a genealogia do crime que, neste caso e se entendo bem, é também a genealogia do criminoso. Mas continue”.

Bom,” continua Elías, “daí que vemos que como que o criminoso se modernizou, se fez melhor como criminoso e se cuida de que não se saiba que é um criminoso, senão que se veste como se fosse bom, como se não estivesse pensando nada e só está assim e nada mais.”

Então, como tem seus cumplices, ou seja, suas companhias no delito. E esses cumplices se encarregam de pôr a cara de boa gente pelo criminoso. Mas como se vê claramente é uma amolação o que acontece, pois então essas companhias do mal inventam um culpável. Ou seja, seu trabalho é pôr a culpa em outro. ”

E então aí vão procurando a quem vão pôr a culpa da desgraça. E às vezes é a mulher que têm a culpa, porque não obedece, dizem, porque aí andam com suas roupas curtas, dizem, e até porque estudam e trabalham, e até querem automandar-se de seu corpo, seu caminho pois, que seja como autónomas, que seja porque pensam, que seja que são como um município autónomo rebelde.

Mas outra vezes põe a culpa nos que têm a pele de outra cor diferente, ou que têm outro jeito de ser, como por exemplo a Magdalena que morreu lutando com o mal e o mau e que era mulher pero como se diz que o deus por erro a pôs num corpo de homem e a Magdalena não se escondeu nem se conformou, senão que como se diz não dava bola para o que pensavam os outros e ela era outra, mas como estava em outro corpo era outroa. E ela, ou ele, ou eloa, lutava também para ser o que era.

Muito brava a magdalena, acaso se rendeu? Nuncamente”, diz Elías e os olhos lhe humedecem ao lembrar a quem, ao seu jeito, amou e ainda ama.

Holmes e Watson guardam um silencio respeitoso.

Elías recompõe e continua: “bom, daí que também a nós como indígenas que somos nos põe a culpa, que as coisas saem mal porque não somos civilizados, dizem, que não deixamos que avance o progresso e se ponha minas no lugar onde há bosques e nascentes. Porque contece que nós como povos que somos, vivemos onde nos jogaram, porque onde antes estávamos nos roubaram e nos expulsaram, também nos prenderam e nos mataram, mas como seja resistimos. E estas terras antes não as queria o criminoso, mas agora as quer porque também é mercadoria, diz, e que a agua se pode comprar e vender, e a terra, e o aire, e o sol, e as arvores, e os animaizinhos, até os mais pequenos, e bom, até do que está feito o pozol é uma mercadoria.

Assim é o jeito do criminoso, que tudo transforma em mercadoria, até as pessoas, as mulheres, as criaturas, os homens, a dignidade, e o que não, pois não serve, porque não se pode comprar nem vender. Mas daí que a problema não é bem isso, mas que seu desastre pode ser feito porque tem uma arma que é a que manda todo seu maldito plano e é o que dizem que é a propriedade privada dos meios de produção. Ou seja, a problema não é que se produza coisas, mas sim que alguns tenham a propriedade do que se usa para essas coisas, e a você só deixam sua força de trabalho que te pagam como mercadoria e mal. Então daí que o criminoso destrói e mata graças a essa arma que é a propriedade privada, e ao mesmo tempo faz toda seu desastre para que não lhe tirem essa arma.

Bom, daí que não sei bem como explicar isso, entendo bem, mas não sei as palavras para dizer em espanhol ou em sus línguas de vocês. Mas mais ou menos assim como disse que está o criminoso, está a vítima que o põe como culpável para roubar-lhe e enganar a outros, e está a arma. E a cena do crime é todo o mundo. Assim, penso que está tudo misturado, porque la sistema capitalista do mundo entra com tudo: com a vítima e ele mesmo é o assassino, a arma que mata e destroi, e a cena do crime.

Entonces eso lo platicamos con el SupGaleano cuando hizo su delito de las mantecadas, que lo castigaron y ahora va a tener otro delito porque lo agarró su celular del SupMoy y ¿tú crees que no se va a dar cuenta el SupMoy? Bueno, pero de ahí que lo seguimos pensando de la problema porque si no lo detenemos al criminal, pues ahora sí que todo el mundo es la víctima, que sea no sólo la gente, también todo, los animales, las plantitas, las piedras, el agua, todo pues.

E a problema também é que não há onde por preso o criminoso, assim que a única forma de parar o crime é destruindo a sistema capitalista.

Claro, não estou dizendo tudo o que conversamos, assim que não está completa a completa, ou seja, não está íntegra, mas é que se lhes digo tudo, os que escutam e leem e veem este conto, vão estar cochilando e pescando ou só estão pensando que roupas vão por amanhã para ir ao baile e a festa porque acaba um ano e começa outro, e acham que assim sozinho o calendário vai mudar as coisas, mas não, para mudar as coisas há que lutar, muito, em todas partes e a todo tempo, assim que não há descanso.

Holmes E Watson ficaram calados até que Elías se despediu dizendo: “Bom, daí que tenho que ir embora, se cuidem e não tenham vergonha dos outros amores, se há amanhã também será por eloas, com eloas, e para eloas”.

E, dirigindo-se a Watson, agregou: “Se não tem chave para a porta do armário, quebre a porta. Há que sair sem medo, como a Magdalena. Ou com medo, mas controlando-o

Watson quis esclarecer que ele e Sherlock não eram o que parecia que eram, mas Elías Contreras, comissão de investigação do ezetaelene, já havia pegado o caminho e a tarde se adormecia, abrigada baixo as sombras de uma noite que já se adivinhava fria.

-*-

Houve uns dias, não faz muitas luas, que a menina Defensa Zapatista decidiu expressar-se verbalmente unicamente com cores. E não com expressões do tipo “isto é azul” ou “senti laranja” ou coisas assim, senão unicamente nomes de cores. Todas as teorias da linguagem e do discurso, foram postas em cheque pela impertinência de uma menina indígena e zapatista.

Um dia, chegou no barraco do SupGaleano e disse: “amarelo”.

O Sup nem tirou o olhar do computador, só disse: “na jaqueta, bolsa direita”.

Defesa Zapatista foi onde estava pendurada a jaqueta, da bolsa direita tirou um pacote de mantecados e saiu correndo dizendo com alegria: “roxo”.

Ao contrário do que se possa pensar, cada cor não tinha um significado preciso. Para entender a Defesa Zapatista era necessário levar em conta seu tom de voz, o contexto em que dizia, onde olhava, a expressão do seu rosto, seus gestos e até a posição corporal.

Uma vez disse também “amarelo”, enquanto caminhava para a escola, como se al patíbulo se dirigisse.

Diz o Sup que foi então que soube que Defesa Zapatista era uma menina normal e não um organismo cibernético, criado pela mente perversa do SupMarcos para chatear-nos. A herança maldita de um Moriarty de nariz impertinente, um questionamento continuo e enfadoso, envolvido na aparente inocência de uma menina que apenas levanta uns palmos do solo. Um robô cuja fonte de energia não é a solar nem a atómica, mas sim os mantecados.

Uma tarde qualquer, O SupGaleano explicava a Elías Contreras:

É uma infante, sem dúvidas. É o mais normal do mundo que uma menina que vai à escola, o faça com o pesar, a angustia e a desesperança de quem marcha pra a escravidão de letras, números, nomes e datas. Ninguém poderia expressar melhor que ela o que significa ir à escola, e acho que levar o gato-perro consigo, assim seja oculto no embornal, é a forma de aferrar-se ao mundo em que Defesa Zapatista é, que não tenho ideia do que ou quem seja, mas ela é feliz nesse mundo e é feliz no seu empenho de completar o time que, talvez, é sua forma de dizer “mudar o mundo”.

Porque observe que ela não sonha em ser uma super-heroína, alguém com superpoderes ou com una katana que faça picadinho a sus inimigos que, se você por atenção, são sempre masculinos. Veja que nunca se refere ao gol que fez com uma técnica que surpreendeu a todos e que teve as mais estranhas explicações. Por outro lado, o finado SupMarcos não deixava de lembrar, a maioria das vezes sem que viera ao caso, que na 6° série havia feito um gol. Esquecendo de mencionar, claro, que sempre esteve no banco de reserva e que só uma vez entrou em campo, e isso porque ao treinador lhe faltava um jogador, e que fez o gol quando escorregou e, sem proposito e como dizem os clássicos, “empurrou a bola ao fundo das redes”.

Também não assume o papel da princesa desamparada que espera a salvação chegando no que ela imagine a masculinidade montada num brilhoso corcel. De fato, acho que sua relação com o Pedrito é exatamente a inversa: ela deve ajudar, orientar e resgatar o Pedrito, mesmo que talvez seu método de tapas contínuos não seja o mais adequado.

Não, Defesa Zapatista assume seu objetivo como algo a cumprir em coletivo e não concebe seu lugar como a líder ou chefe, porque escolheu a posição que menos brilho poderia ter, a de defesa, e o faz para ajudar o cavalo torto que está no gol. Seu trabalho é procurar e encontrar quem se some, quem trabalhe em equipe, e é, ao mesmo tempo parte do time, a ponte para incorporar-se a ele. E Quando valoriza igual posições como a de gandula, ou o gato-cachorro que corre torcido, e põe como requisito único querer jogar, é sua forma de dizer “querer lutar”.

Em Defesa Zapatista está não um mundo novo, certo, mas talvez está algo mais terrível e maravilhoso: sua possibilidade.

E quando fala cores, talvez está provando novas formas de comunicação para esse mundo que nem imaginamos, mas que ela já assume como por vir, não sem a luta necessária e urgente para trazê-lo, de onde quer que se encontre, a esta realidade que padecemos.

Não imagino algo mais zapatista que o que no esforço dessa menina se sintetiza.

Isso discorria o SupGaleano ante um Elías Contreras silencioso e atento. Nisso, apareceu na porta do barraco Defesa Zapatista com a bola em uma mão e o gato-cachorro na outra e perguntou: “rosa?”

Já vamos, nos vemos lá”, respondeu o Sup. Defesa Zapatista só concordou com um “preto” e foi correndo.

Elías Contreras preguntou ao Sup: “E o que disse?”

Sei lá”, respondeu o Sup, enquanto duvidava entre pôr a camisa do inter de Milão (que parece, me dizem, já compraram os chineses), a do Atalanta (que já está nesse mercado de jogadores chamado UEFA), ou a dos Jaguares de Chiapas (que quem sabe onde estão), mesmas que encontrou no baú de lembranças do finado. Finalmente vestiu a camisa do EZLN com a que, em 1999, um time de bases de apoio zapatistas debutou no estádio “Palillo Martínez”, na Cidade dos Esportes, na Cidade do México, em uma partida na que fez um só gol e que o finado SupMarcos sintetizou assim: “não perdemos, o que acontece é que nos faltou tempo para ganhar, assim que falta o que falta”.

Na realidade sempre suponho o que quer dizer. Às vezes acerto, às vezes erro. Como se diz, aplico o método científico do ensaio e o erro. Vamos Elías, acho que temos que ir ao curral porque tem um time para completar. De repente dilata, mas sim, um dia vamos ser mais”, agregou a modo de desculpa o SupGaleano.

No curral já estavam o cavalo manco mastigando com perseverança a mesma garrafa de plástico, o Pedrinho que discutia algo com a menina, o gato-cachorro que tentava em vão morder a flamante bola que o bom Vlady deu de presente a Defesa Zapatista, e duas figuras absurdas que permaneciam num canto do suposto campo de futebol.

Ninguém notou, mas entre Cabeça de vassoura, cabelo de Tortilla, Elías Contreras e o SupGaleano, houve uma troca de sorriso cumplice, e uma ligeira inclinação da cabeça como cumprimento.

Defesa Zapatista ria, enquanto o gato-cachorro brincava ao redor dela tentando pegar a bola.

O frio havia minguado e uma tibieza começou a vestir a tarde.

E tudo isso que aqui narro, aconteceu em qualquer calendário, pero em uma geografia precisa: as montanhas do sudoeste mexicano.

Dou fé:

O gato-cachorro.

Au-miau.

Obrigado.

Do CIDECI-UniTierra.

SupGaleano.

México, dezembro de 2017.

 

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